A eficácia das ARCs no controlo da pandemia ainda está por comprovar. Não só é impossível chegar a um nível de adoção que seja relevante, como a sua eficácia ficou aquém do esperado em vários países onde elas foram implementadas.

Mais de metade da população?

Segundo alguns estudos, para as ARCs serem eficazes terão que ser adotadas e utilizadas corretamente por grande parte da população, tipicamente acima dos 60%. Isto já assume que a utilização de uma ARC é uniformente distribuída pela população e território, o que pode não se verificar na prática.

Em Portugal, a adoção voluntária de uma ARC por mais de 60% da população parece ser um objetivo manifestamente impossível se olharmos para os números. Em Portugal, 73,6% da população tem acesso a smartphone com internet móvel, e uma parte desse número não terá um telemóvel compatível com a app.

A Prof.ª Joana Gonçalves de Sá, num artigo no Público, articula de forma clara o problema:

Segundo a maioria das previsões, seria necessário um aviso rápido (difícil numa doença com infecção assintomática) e uma taxa de utilização elevada (estimativas variam entre 40% e 85%, sendo a mais comum em torno dos 70%) para que o DCT [digital contact tracing, ou rastreio de contactos] tivesse claras vantagens. Uma vez que a população portuguesa que tem smartphones é de cerca de 70%, estamos a dizer que basicamente sete milhões teriam de a) instalar a aplicação; b) tê-la a funcionar; c) ser testados; d) decidir partilhar os resultados do seu teste; e) o sistema de alerta funcionar e todos os meus contactos receberem um aviso; e f) os meus contactos ficarem em quarentena e serem testados também. É importante notar que ficariam de fora os que não têm acesso a smartphones ou por razões financeiras ou por baixa adesão à tecnologia: os pobres e os idosos.

Como continua a autora, alguns proponentes das ARCs respondem dizendo que talvez 50% já chegue, ou que mesmo que seja menos que isso, é sempre bom ter alguma informação, e que quanto mais melhor. Mas isso não é necessariamente verdade: Se pouca gente usar, as pessoas não vão receber os alertas e irão estar a fiar-se numa falsa sensação de segurança proporcionada pela utilização da ARC, que pode incentivar comportamentos de risco. Já no caso de a aplicação ser um grande sucesso e toda a gente a usar, aumentarão então os casos de falsos positivos: a vizinha do andar de cima, a pessoa que esteve no mesmo espaço comercial em que foram usadas todas as medidas de proteção, etc. Iria ainda obrigar a ter uma infra-estrutura de testes que simplesmente não existe: por cada caso positivo, o número de alertas gerados facilmente andaria nas centenas, fazendo disparar os pedidos de testes sem resposta.

Lá fora

Alguns governos também já se aperceberam que uma ARC não é uma solução mágica.

Na Austrália, o governo promoveu fortemente a ARC oficial, com o primeiro-ministro a declarar que a utilização da app "é o bilhete para garantir que se pode atenuar as restrições", e o ministro da saúde a deixar claro no Twitter a posição oficial de que quem quiser ir ver um jogo de futebol deve instalar a app – no tweet, diz: "Quer ir ao estádio? Instale a app". Mas mesmo com seis milhões de australianos a seguir a deixa, não se chegou perto dos 40% que o governo havia estipulado como objetivo mínimo de eficácia. Mesmo com grandes cadeias, como o McDonald's, a usar as próprias apps para notificar as pessoas para instalar a ARC oficial. Um mês depois, o resultado era humilhante para o governo: apenas uma pessoa foi identificada através da aplicação!

Assim, o discurso passou rapidamente de uma ARC como a chave para as liberdades individuais, para apenas um acrescento aos métodos convencionais de rastreio de contactos, para funcionar a par de regras de distanciamento social e testagem contínua para prevenir surtos locais.

Em Singapura, que tem um regime "musculado" que não brilha no respeito pelos Direitos Humanos, apenas 20% da população fez download da app no primeiro mês, sendo que metade desse valor foi alcançado nas primeiras 24 horas. Nas palavras do próprio "líder de produto" responsável pela app do governo de Singapura: "Se me perguntarem se algum sistema de rastreio de contactos Bluetooth implementado ou em desenvolvimento, em qualquer parte do mundo, está pronto para substituir o rastreio manual de contactos, direi sem hesitação que a resposta é, Não. Não agora (...) nem num futuro previsível."

A Islândia detém o recorde de penetração de ARCs: dos seus 364 mil habitantes, 38% fizeram download da app, mas isso pouco parece ter ajudado.

E agora?

Não há forma de chegar ao número mágico. Assim, fica claro que a melhor — e para já a única — forma de ajudar no combate ao vírus é evitar que ele se transmita através do cumprimento das medidas de higiene e distanciamento, bem como a utilização correta dos equipamentos de proteção pessoal.